terça-feira, 27 de março de 2012

RETROSPECTIVA DO TRABALHO DE EDGARD NAVARRO NA MOSTRA DO FILME LIVRE


Por Chico Serra

No capítulo Esboço de uma Escola Baiana, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Glauber traça uma perspectiva histórica do cinema, das artes plásticas e da literatura na Bahia, apontando, em relação à produção cultural baiana de então que o improviso, o romantismo e o discurso descritivo marcaram (e mal) as expressões artísticas da Bahia: “Jorge Amado (…) não carrega a disciplina de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto.” No mesmo capítulo, faz uma análise (crítica?) da estética baiana: “a Bahia é – na síntese – o barroco português, o misticismo erótico africano e a tragédia despojada dos sertões.” Dentre os principais filmes do Ciclo do Cinema Baiano, compreendido entre os anos 50 e início dos anos 60, uma abordagem social mais profunda e de inspiração neorrealista começou a questionar essa tipificação (reflexo da visita de Rossellini à Bahia?); e filmes como Um Dia na Rampa, A Grande Feira, Barravento e o premiado em Cannes O Pagador de Promessas, com estéticas e temáticas diversas, voltaram-se para outras características sociais e culturais, desmistificando o exotismo tropical de produções filmadas na Bahia por forasteiros (brasileiros ou estrangeiros).


Alguns anos depois, o cinema da Boca do Lixo influencia experiências como Meteorango Kid – Herói Intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira, e Caveira My Friend (1970), de Álvaro Guimarães, que prepararam o terreno (ou melhor dizendo, o terreiro) para o anti-herói Superoutro “baixar” em Bertrand Duarte, desafiando a lei da gravidade na subversão audiovisual de Edgard Navarro, realizada em 1989. Não por acaso, o crítico baiano André Setaro saca a genealogia: “Superoutro é filho de Meteorango Kid.”

Edgard Navarro Filho (Salvador, 1949), formado em engenharia civil (diploma que “trouxe um vazio enorme (…) minha alma estava em outros mundos”) e artes cênicas, é iniciado no cinema com experiências em super-8 ainda nos anos 70, realizando curtas e documentários provocativos, com destaque para a fábula psicodélica Alice no País das Mil Novilhas (1976). Em seguida, dirige o curta radical O Rei do Cagaço, que o próprio diretor apresenta como “filme excremental”. Explica: “Foi em 77, minha segunda experiência em cinema, e o filme se constrói a partir desta cena, acho uma cena fundamental, que é a coisa do excremento, o filme era o filme anal, sobre a retenção anal, sádica, de nosso mestre Freud.” Exposed, seu terceiro filme da “trilogia freudiana”, é uma provocação em torno de um símbolo fálico militar (em plena ditadura) e Na Bahia Ninguém Fica em Pé, realizado em parceria com José Araripe Jr. e Pola Ribeiro (1980), é um documentário anárquico sobre a situação do cinema de autor e livre frente à institucionalização do cinema “industrial” baiano daquela época. Essas experiências em super-8, marcadas pelo humor cáustico e precariedade técnica, sinalizam uma crítica a um cinema industrial e apontam para um radicalismo estético, que não se via há algum tempo na Boa Terra, apesar dos esforços experimentais solados no final dos anos 60 de André Luiz Oliveira e Álvaro Guimarães, e do curta de estréia de Glauber Rocha, O Pátio (1959).

Entre 82 e 84, Navarro realiza seu primeiro curta em 35mm. Porta de Fogo aborda os últimos dias de Lamarca no sertão baiano com uma mistura de guerrilha, filme de cangaço e misticismo anárquico que ganha prêmio em Brasília no ano de 1985. Na tentativa de esconder-se dos militares na aridez nordestina, o guerrilheiro entra em crise: como conciliar um discurso urbano, de intelectual de esquerda com a aridez, geográfica e social, daqueles sertões?Porta de Fogo tem duas chaves que conduzem a uma tentativa de síntese da obra de Navarro: o problema da ideia de uma cultura intelectualizada e/ou dogmática (tanto de esquerda quanto de direita), frente ao primitivismo brutal do sertão e do sertanejo; e o diálogo entre uma visão política radical (a guerrilha de Lamarca) e o delírio místico e anárquico, evocado pelo cangaceiro no ritual de passagem. Porta de Fogo é um cordel audiovisual sobre o encontro de Lampião com o Capitão Lamarca na terra do sol. Em 86, Navarro refilma Lin & Katazan, baseado em texto de Chico Buarque, cuja primeira versão foi realizada na década de 70 em super-8. Situando a trama num prédio em construção, Navarro faz sua catarse pessoal e apresenta uma visão bem particular da engenharia civil.

Superoutro, sua obra-prima, é provavelmente seu filme mais conhecido. Curiosamente trata-se de um média-metragem, formato muito marginalizado no circuito exibidor brasileiro. Com influências de Fellini, Pasolini, Buñuel, Glauber e do cinema marginal, o diretor desenvolve algumas experiências iniciadas nos anos 70, agora em 35mm, colocando em choque diversas referências culturais (da religião à televisão, na antológica sequência do protagonista assistindo ao programa do Silvio Santos), e propondo uma libertação total, seja do comportamento, seja da crença nos valores “morais e cívicos”. Em desconcertante atuação, Bertrand Duarte é provavelmente o esquizofrênico mais carismático do cinema brasileiro, percorrendo uma trajetória épica e grotesca pelas ruas de Salvador.
Na revisão crítica realizada em Talento Demais (vídeo produzido entre 94/95), situa o experimentalismo superoitista dos anos 70 como um contraponto temático e estético às grandes produções, sem desmerecer a luta dos realizadores e técnicos baianos, a quem o filme presta uma singela homenagem. É através da produção “marginal“ que muitas questões existenciais, políticas e estéticas pertinentes a sua geração são jogadas nas telas. Porém há a crise e o desabafo: o experimental, no entanto, não enche a barriga de ninguém. Meteorango Kid, visto por Navarro, entra em crise e vai procurar emprego na televisão. Ironicamente, 15 anos depois, André Luiz Oliveira vai produzir para o Canal Brasil justamente um documentário sobre Navarro (Agonia e Êxtase). OPapel das Flores, produzido em vídeo, em 1999, conta com narração zen de Helena Ignez (musa baiana do cinema novo), e é dedicado ao fotógrafo Vito Diniz.

Se por um lado as dificuldades nos campos da economia e política (ou a falta de políticas cinematográficas para o cinema baiano, de caráter mais experimental), atrasaram a realização de seu primeiro longa (no livro Cinema de Invenção, Navarro é chamado de gênio e teria longas em projeto já em 86, segundo Jairo Ferreira), por outro, ao realizar Eu Me Lembro, apenas em 2005, demonstra total lucidez e maturidade na evocação da memória coletiva de toda uma geração, abrindo mão do experimentalismo radical de seus curtas para dar lugar a um memorial poético da contracultura, sem se render às armadilhas visuais de uma autobiografia. Em O Homem que não dormia (2011), propõe novamente a ruptura radical de uma falsa normalidade, entre a loucura e a revolta, e vai do transe místico à “tragédia despojada do sertão”, retomando a parceria com Bertrand Duarte e, ainda, rendendo homenagem a um dos mestres do pioneiro cinema baiano, Luiz Paulino dos Santos.

No caminho para um cinema livre, entre a loucura anárquica e a lucidez não conformista, entre a escatologia e a poesia, Navarro reinventa o cinema de invenção made in Bahia e segue deglutindo o cinema de vanguarda mundial, com seu inconfundível sotaque de baiano “arretado”. Como diria Geraldo Pereira: “Oba! Salve a Bahia, Senhor.

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